O Propósito do Ciência sem Fronteiras

politecnicoinv

Sou atualmente, como milhares de outros estudantes universitários brasileiros, um intercambista no exterior com o intuito de melhorar minha formação. Apesar de ter iniciado meus estudos aqui fora de outra maneira, também fui contemplado com a bolsa do Ciência sem Fronteiras (CsF). Isso porque a Capes e o CNPq, instituições do governo federal coordenadoras do programa, decidiram que sou um estudante digno de fazer parte dele. Do mesmo modo, de acordo com as metas do programa CsF, outros 63999 estudantes de graduação até 2015 também estão destinados a ser.

Quando iniciei este post com o título “O propósito…” não estou querendo apenas redizer o que a Capes diz sobre seu próprio programa. Ou o que a Dilma diz ser o propósito do programa.
Afinal, de acordo com o site do CsF, os objetivos do programa são claros e diretos. Abaixo transcrevo os que dizem respeito aos alunos de graduação em intercâmbio no exterior:

  • Investir na formação de pessoal altamente qualificado nas competências e habilidades necessárias para o avanço da sociedade do conhecimento;
  • Aumentar a presença de pesquisadores e estudantes de vários níveis em instituições de excelência no exterior;
  • Ampliar o conhecimento inovador de pessoal das indústrias tecnológicas;

O que aí está dito, dito já está!

A questão é que, desejados ou não, existem inúmeros efeitos que um programa deste calibre desencadeia sobre seus stakeholders:

Os estudantes provavelmente vão aprender pelo menos um novo idioma, vão aprender a se virar sozinhos meio a diferentes culturas, verão como funcionam lá fora as universidades, cidades,  sociedades, etc; As universidades brasileiras provavelmente ganharão com o aumento do volume de estudantes mais maduros ao retornarem, e etc; Não seria difícil continuar a lista e desenrolar os possíveis efeitos para o governo brasileiro, para os políticos, para a sociedade e assim por diante.

A meu ver é simples perceber que qualquer efeito do CsF – ou de qualquer outro programa de intercâmbio – obrigatoriamente se inicia com o estudante. Qualquer que seja o objetivo: ampliação do “conhecimento inovador“, “avanço da sociedade do conhecimento” ou das “indústrias tecnológicas”; são pessoas – do gênero humano – que devem pegar um avião, desembarcar em outro país, procurar lugar para morar, ir às aulas na universidade, ir a festas com outros estudantes para se enturmar, gesticular com o atendente da padaria para conseguir comprar pão enquanto não se é fluente na língua, ou seja lá o que for preciso para cumprir os objetivos do programa. São essas mesmas pessoas que, independentemente do (in)sucesso, gerarão e repassarão para outras estruturas – governo, sociedade ou universidade – os efeitos do intercâmbio.

Eu, como um destes vetores – e como vetor-observador de outros colegas vetores – digo com segurança que durante meu período aqui fora melhorei meu currículo profissional e pessoal de modo exponencial, em comparação a minha habitual taxa de crescimento. De modo que se eu ficasse apenas no Brasil nunca seria possível, ou ao menos, extremamente improvável. Observando outros brasileiros em intercâmbio (com ou sem a bolsa do CsF) a impressão é de que esse resultado é experimentado por praticamente todos. Ainda que crescimento profissional e pessoal sejam conceitos muito subjetivos, acho sensato assumir que a maior parte das vezes que enxergamos melhoras em nós mesmos, estamos certos. Portanto, independentemente da universidade de destino ou do que é feito, quando um intercâmbio acadêmico acontece, você geralmente consegue um grupo de pessoas muito melhor preparada.

Mas, como de hábito, qualquer programa de intercâmbio tem um preço: o CsF está custando 3 bilhões R$ para o Brasil, incluindo as bolsas de doutorado e para pesquisadores. E também tempo e muito esforço para organizar o programa e fazer contato com as universidades-destino pelo mundo. Dito isso, uma questão que deve intrigar o cidadão brasileiro é: os efeitos benéficos para o país de ter uma porção de estudantes turbinados com intercâmbio valem 3 bi e o esforço? Eu não sei responder essa pergunta, e deve ser uma pergunta muito difícil, já que quantificar o benefício, social ou econômico, significa ter de quantificar grandezas intangíveis e difíceis de serem medidas (não que faltem tentativas).

Também não faltam críticas de como essa quantidade de dinheiro e oportunidade poderia ser melhor investidas em outros lugares. Como opineiro político, eu diria que tem muita coisa mais urgente para se investir do que intercâmbio. Mas, por outro lado, investir na abertura de mente de uma parcela da sociedade, como engenheiros e profissionais de área tecnológica, é também extremamente necessário, dado o atraso do país quando se fala em criar ou usar tecnologia. Eu não sei onde fica o break-even point do ideal a se investir e nem é intuito deste post analisá-lo. Porém, meio a tantos movimentos duvidosos dos governos brasileiros, do meu ponto de vista de integrante do CsF, vejo que este parece realmente estar agregando um crescimento verdadeiro para a qualidade da formação (profissional e pessoal) de alguém.

Ainda que alguns estudantes se percam no caminho, ou desistam de voltar, é sensato esperar que considerável parte destes engenheiros, cientistas e tecnólogos, venham tornar-se profissionais de razoável influência no Brasil. Eu fico um pouco mais tranquilo em saber que serão instaladas em algumas das pessoas de influência no futuro do meu país idéias claras de:

como os americanos fazem para sempre estar no estado da arte da tecnologia;
como os europeus lidam diariamente com imigrantes e pessoas de outras culturas;
como suíços e holandeses fazem para manter suas cidades tão organizadas;
como os alemães reconstruíram totalmente seu país após a guerra;
como os italianos reconhecem a importância, incentivam e investem em pequenos negócios locais;
como os franceses não se mantêm calados ao verem sua liberdade ameaçada;
como os brasileiros muitas vezes só reconhecem o valor de seu país quando estão fora dele;
como alguns valores como honestidade e humildade são fundamentais para uma uma sociedade melhor;

e assim por diante.

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4 opiniões sobre “O Propósito do Ciência sem Fronteiras

  1. Olá! Já que meu texto foi linkado, resolvi deixar um esclarecimento. Nunca recebi um tostão nem qualquer tipo de apoio do governo brasileiro para estudar no exterior. Por tanto, não “me perdi pelo caminho”, simplesmente encontrei outro caminho, que no momento é melhor para mim. Acho importante devolver ao país o valor investido e acho justo obrigar aos que estudam no exterior com dinheiro público a trabalhar, pelo menos por um tempo, no Brasil. Quando não há investimento econômico envolvido, fica o critério de cada um escolher o seu futuro.

    • Obrigado pelo comentário, Glenda. Eu tomei o cuidado de incluir um “ou” após o “se percam no caminho”. Eu não quis dizer que os que optam por ficar se perdem pelo caminho. Eu citei seu texto porque achei um ótimo exemplo de como existem muitos motivos para querer ficar, e eu concordo com todos eles. Aqui na Itália eu experimentei praticamente tudo que você escreveu, e não escondo que a vontade de ficar é tremenda. No meu texto estou tentando mostrar que o CsF pode estar sendo um bom investimento (ainda que feito de um jeito errado na minha opinião) para o Brasil, e os organizadores do programa devem levar em conta que uma boa parte vai querer ficar pela Europa, por que os incentivos são incontáveis!

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